| Sessão. Terapia. Cecília Valentim sugere um exercício terapêutico. Em pé, eu dobro os joelhos, numa posição que me remete aos anos de tai-chi, com mestre Liu Pai Lin. Pernas abertas, pés paraleloas, joelhos flexionados. Fecho os olhos, tento identificar o que é que dói, de onde emana a ansiedade, o berço da angústia. Meio do estômago. Claro, há, fisicamente, uma gastrite em tratamento que nasceu há mais de um ano, depois de uns socos e pontapés que ganhei numa noite de lua cheia. Mas, também há medos, inseguranças, sentimentos que se enroscam nas minhas pernas e me atrasam o passo. Cecília pede uma imagem para esse ponto. Borboletas. Borboletas no estômago. Ou melhor, uma só. Uma mariposa, daquelas grandes, escuras, peludas. Volto quase trinta anos no passado e há uma cena: escola, dia de prova. Uma aluna, onde me vejo menina, respondia às questões. Tarde quente, verão avançado. De repente, pela porta aberta da sala de aula entra uma mariposa. Grande, escura, peluda. Ela foca, mira e vem exatamente em minha direção. Estou paralisada, com medo, com angústia. Como quebrar o protocolo de um dia de prova e sair correndo da sala de aula? Justamente eu, uma aluna aplicada, das que se sentavam nos primeiros lugares e tinham fome de conhecimento? Mas, foi inevitável. De um pulo saltei da minha carteira escolar, coração na boca, a mariposa voando em minha direção e eu voando em direção à porta. A professora não entendeu nada e foi me encontrar lá fora, no corredor, branca,gelada. Alunos em alvoroço, quem tentava colar, conseguiu. Só voltei para a sala de aula, com a certeza da professora de que aquele monstro de asas tinha entrado pela porta e saído pela janela mais próxima. Terminei a prova. Não fui tão bem quanto desejava. O tempo passou, toquei para fora muitas mariposas de quartos, salas e casas. Chegava em meu apartamento e lá estava alguma, voando ao redor da lâmpada ou quieta no azulejo branco da cozinha. Eu olhava e pensava ou às vezes dizia em voz alta: "Pode ir embora. Aqui não tem comida pra você, seu lugar não é aqui." As espertas desapareciam rápido, as teimosas davam um tempo por ali, trocavam de cômodo. A essas uma toalha, um pano de pratos voando e logo elas achavam o caminho da roça. Nunca entendi por que as mariposas tendiam a ignorar os jardins do prédio, as árvores das ruas e escolher azulejos, paredes e tetos. Atração pela luz? Pode ser. Mas, isso dava-lhe alimento, segurança ou só ilusão? Li não me lembro onde e nem sei se isso está correto que essas mariposas são cegas. Se são cegas, por que desejam tanto a luz? Ou seria o calor irradiado pela lâmpada? Volto para a sessão, para o meio da mandala, onde estou sob os olhos muito azuis de minha terapeuta. Ela manda soltar a mariposa. Meu estômago não é lugar para uma. Abros janelas, portas, pego uma toalha de rosto e lá vou. Toco-a para fora e fecho tudo. Que ela vá para longe, que vá voar em outras paragens. Há tanto céu lá fora! Tanta luz! No lugar que ela deixou, que ela habitava, precisamos colocar algo. Imagino um arco-íris. Ele se enrola em si mesmo, uma mandala, um infinto de arco-íris. Vai ficar no lugar da mariposa cega que se alimentava da minha luz. Esse arco-íris é o símbolo do meu pacto comigo mesma. Cecília pede um mantra e meu mantra destes dias diferentes é: Sou escritora. Passei anos desejando falar isso com naturalidade. Hoje, livre das asas do medo que voa pra cá e pra lá, consigo dizer em alto e bom tom: SOU ESCRITORA! ANA CARDILHO 17/11/2009 |