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Ontem tive a honra de revisar um texto de meu amigo João Carlos Pinto Dias sobre um tema sobre o qual trabalhamos apaixonadamente no passado: o mistério da rejeição às quatro nomeações de Carlos Chagas ao Prêmio Nobel pela descoberta da Tripanosomíase Americana. A história e questões relacionadas podem ser encontradas em vários artigos que João Carlos e eu publicamos nos links abaixo. Resumidamente, Carlos Chagas era o candidato natural ao Prêmio Nobel durante um certo número de anos em função de um contexto constituído pela cultura da pesquisa médica daquele momento, do impacto da descoberta do ponto de vista científico e de saúde pública, entre outros. Os motivos pelos quais o prêmio foi negado quando as indicações foram feitas permanece um mistério em torno dos quais todos fizemos nossas especulações.

Minha questão aqui diz respeito ao papel dos símbolos públicos de reconhecimento de mérito para as coletividades dos reconhecidos: países, instituições, comunidades, equipes. Eu acredito que o reconhecimento em si tem um impacto profundo, do ponto de vista político e cultural, sobre estas coletividades.

Não é por acaso que se concede o P. Nobel da Paz a este ou aquele – em geral, se tem em mente um sério conflito em curso, como o do Oriente Médio, e com certeza a premiação tem uma “agenda” de interferência (positiva) no mesmo. Os Nobeis científicos também seguem agendas de interesse, ou pelo menos é o que nós, que nos dedicamos a estudar as condicionantes sociais e políticas das ações dos cientistas (ainda que seja uma ação no plano da criação do próprio discurso científico), tentamos demonstrar. Nash foi laureado pelo impacto econômico de sua teoria e, sendo laureado, o conteúdo dela foi duplamente reforçado. Assim, o "botched prize" (premio frustrado) de Chagas com certeza teve um desdobramento político, só que um “impacto fantasma”, às avessas. Só sabemos em retrospectiva: uma doença que poderia, se dada a devida visibilidade, ter sido controlado e portanto poupado ao país MUITO em sofrimento e em GRANA mesmo, só pôde ser enfrentada de fato na década de 1980 (tendo sido descoberta em 1909). Digamos que pelo menos 40 anos depois que as condições para isso já estavam maduras. Ou seja, o desdobramento "fantasma" seria um atraso de várias décadas com sério impacto sobre o desenvolvimento nacional e modernização econômica.

Embora isso seja totalmente especulativo, o mundo dos “se’s” (“se” Chagas tivesse sido premiado, então talvez a visibilidade resultante teria permitido o controle precoce da enfermidade), eu acredito que a rejeição das indicações ao Nobel teve uma inegável conseqüência, e de grande porte.

Dando um salto histórico e geográfico de dimensões olímpicas – da comunidade médica internacional e Instituto Karolinska dos anos 1920’s para a Favela de Paraisópolis na década de 2000 – eu penso quase todos os dias no impacto que a premiação de um de nossos atletas juvenis ou pré-juvenis num campeonato mundial pode ter sobre a comunidade. Embora sejamos um esporte marginal e amador, com pouca cobertura da imprensa, é impossível que não conseguíssemos que ela nos concedesse algum espaço caso Geisia dos Santos, Danilo Batista, Daniela Gaudêncio ou Maria Santos vencessem um campeonato mundial de Levantamento Básico (Powerlifting). O troféu ou medalha deles, assim, não seria apenas um incentivo individual e talvez um elemento muito decisivo em suas trajetórias pessoais. Teria um impacto difuso sobre 3.000, 8.000 ou 80.000 pessoas. Ou até mais (são números que calculamos para efeito de um projeto que escrevemos quanto ao impacto do Projeto de Powerlifting de Paraisópolis em suas ações educativas, e o tamanho bruto da comunidade).

Eu sou muito parcimoniosa quanto ao papel dos heróis e “role models” (modelos de papel, função). Acho que transformar casos de sucesso em heróis, que são figuras estereotipadas, das quais limpamos os conflitos e relatividades, tem hora e lugar. Países precisam de cientistas heróis quando estão construindo ou “negociando” um papel para sua ciência. Comunidades que lutam contra complexas questões sociais de desvantagens de todo tipo também podem lucrar com isso. Já argumentei em outro lugar que desumanizar conquistas individuais contra certas condições como doenças, drogadicção ou formas variadas de degradação humana pode não ser vantajoso a ninguém – nestes casos, a humanidade e conflitos expostos podem ser mais benéficos.

Mas para países e coletividades, heróis têm um lugar, sim. Prêmios Nobeis, medalhas Olímpicas e outros símbolos de reconhecimento podem fazer toda a diferença entre um salto de qualidade que milhares de pessoas podem dar juntas no sentido de conquistas sociais fundamentais, ou não.

Por isso, a perda do Nobel foi lamentabilíssima. Quem quer que tenha sido responsável por ela causou ao país perdas que nunca poderemos calcular. E por isso luto com todos os instrumentos para que pelo menos um de nossos meninos possa ser mandado para o próximo mundial, pois o brilho da medalha dele ou dela espalhará luz entre milhares de pessoas, como um prisma mágico.

 

Marilia

 

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“O Nobel Perdido” http://www.submarino.net/cchagas/artigos/art4.htm

“A Descoberta da Doença de Chagas” - http://atlas.sct.embrapa.br/pdf/cct/v16/cc16n201.pdf

“The Noble Enigma: Chagas’ Nominations for the Nobel Prize” - http://www.scielo.br/pdf/mioc/v94s1/ultimo.pdf

 

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Mais uma ilustração da cegueira autoritária e fascista da esquerda oficial – posicionando-se quanto à Lei do Incentivo ao Esporte

 

Acabo de ler um documento divulgado pela Executiva Nacional de Estudantes de Educação Física, uma versão EF da mediocridade intelectual do movimento estudantil monopolizado pelos grupelhos da ultra-esquerda desde sempre. Diz o documento (mal escrito e mal articulado, como sempre): “O que nos parece é que essa lei avança numa concepção de estado minimizado, que retira do controle e da administração pública elementos importantes. Pior, transforma o patrocinador num benfeitor e recompensa-o com a isenção de impostos.” Lendo o pequeno documento em questão, entende-se que os luminares que o redigiram defendem que não haja nenhuma contribuição da iniciativa privada no esporte e ainda por cima questionam qualquer incentivo ao esporte de rendimento. Ora, nem sei por onde começar a demolir raciocínio tão anacrônico, autoritário e contrário aos interesses da população.

Em primeiro lugar, em que raio de sociedade essas criaturas pensam que vivem que dispensa a contribuição e (bem pior) a responsabilidade social das empresas?? Esta é uma sociedade de mercado e interessa, sim, ao desenvolvimento nacional, uma economia onde estas sejam incentivadas a práticas com o maior retorno social possível. Leis sensatas (o que não necessariamente é o caso das aprovadas) que contemplam o incentivo à inovação tecnológica (que estimularia o desenvolvimento de uma indústria mais moderna e competitiva), a parceria criativa com o Estado nos serviços públicos (saúde, educação e segurança), bem como o reivindicadíssimo apoio à cultura e ao esporte (que implicam obviamente em incentivo fiscal, qualquer um sabe disso) fazem parte de uma luta pela modernização na qual todos os seres minimamente críticos do planeta já se engajaram alguma vez na vida (antes da desilusão completa que alguns sofreram). Eu até sei qual o modelo assustador de sociedade que quem advoga a exclusão da iniciativa privada dessas funções tem em mente, mas deixo ao leitor concluir o que significa lutar CONTRA a MODERNIZAÇÃO em tempos de globalização e de perigosos dilemas quanto a abismos digitais e culturais que países emergentes como o nosso vivem.

Em segundo lugar, é triste verificar que o movimento estudantil consegue impedir que estudantes de economia tenham a menor noção do que é Economia, estudantes de biologia sequer entendam as bases dos conceitos evolutivos e estudantes de Educação Física entendam o papel social do esporte de rendimento. Meu deus do céu: dizer que incentivar o esporte de rendimento não estimula a inclusão social significa que estes estudantes deveriam ser jubilados de seus cursos! É o mesmo que dizer que a ciência de ponta ou a arte erudita não devem ser apoiadas – não são para o povo! Para quem então? Para a elite, que conta com o mecenato familiar (vulgo “paitrocínio”)? Ora, paciência tem limite.

Todos sabem que é precisamente às populações secularmente excluídas da cultura de “alto rendimento” (arte erudita, ciência de ponta e esporte de rendimento) que devemos orientar nossos esforços de inclusão. Assim são os programas de levar música erudita aos bairros pobres, ballet clássico às periferias sujas para crianças sem acesso à nada, informação científica e apoio à “scientific literacy” (alfabetiazação científica) para os milhões, e não para a meia dúzia que tem acesso às “prep schools” (aqui no Brasil, a meia dúzia de escolas caríssimas que prepara a nova geração da elite simbólica que domina o país desde que ele existe).

O esporte de rendimento, competitivo, além disso, tem funções adicionais que a mediocridade intelectual e falta de formação dos estalinistas de plantão impedem ver: ele constrói redes sociais de apoio em contextos onde a juventude é particularmente vulnerável a riscos de vitimização por criminalidade e outras conseqüências nefastas da exclusão social; ele introduz elementos de estilo de vida saudável não apenas entre os atletas engajados, mas com efeito multiplicativo sobre as comunidades envolvidas; ele estimula a educação continuada onde é conhecido o êxodo escolar e fracasso acadêmico; ele melhora a auto-estima de segmentos sociais massacrados pelos elementos ideológicos da cultura dominante, especialmente entre jovens, mulheres e negros.

Isso que escrevo aqui não é mais uma masturbação intelectual entre tantas outras nas quais se engajam tanto os militantes profissionais como tantos acadêmicos que sujam o nome de sua profissão, que deveria missionariamente servir ao propósito de democratizar o conhecimento. Digo tudo isso da posição de quem luta pelo sucesso de um programa social ligado ao esporte de rendimento numa favela de grande porte na maior cidade do país, a favela de Paraisópolis, onde conduzimos o Programa de Powerlifting de Paraisópolis. Nossa expectativa não é simplesmente fazer meia dúzia de campeões mundiais (porque isso, amigos, FAREMOS COM CERTEZA). Nossa missão é interferir positivamente na vida de uma comunidade de 80 mil habitantes excluídos no coração mais afluente da maior metrópole brasileira, democratizando conhecimento, criando sistemas de apoio e solidariedade, onde o Estado não se incomoda com essas funções.

E então? Deveríamos abandonar nossos esforços, nos inscrever em algum grupelho sectário e lutar para que o Estado vá lá promover “caminhadas saudáveis” nas ruas ou qualquer outra bobagem própria de quem não entende nada de corpo, de saúde, de nutrição e de pobreza?

Não para nós. Já nos cansamos desse esquema furado, demagógico, populista e cruel.

 

Marilia Coutinho (Ph.D. sim, mas sem nenhum orgulho especial)

Coordenadora técnica do Programa de Powerlifting de Paraisópolis

www.paraisopolispower.org

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This page was loaded Nov 28th 2009, 11:18 pm GMT.