Home
Body Stuff
Coisas sobre corpo
Recent Entries 
18th-Feb-2007 06:21 pm - A Maldição da Vizinha Fumante
sitting

Só pode ser um feitiço colocado por todos os fumantes que eu incomodei pela vida. A todos que alguma vez me perguntaram, tirando seu cigarrinho da carteira e já se preparando para acender, “incomoda?”, eu respondi: “sim, e é proibido fumar aqui”. “If looks could kill”, como se diz em inglês, eu teria sido fuzilada inúmeras vezes.

Assumo: odeio o cheiro do cigarro, detesto o cheiro de cinzeiros, de estofamentos de locais onde se fuma e de gente fumante. Tudo neles: pele, hálito, cabelo... Simplesmente, fumante FEDE. E eu sou um ser orientado pelo olfato.

Bem, eu tenho uma vizinha que nunca se deu exatamente bem nem mal comigo. Moramos em casas adjacentes há uns 12 anos e eu fui à casa dela uma única vez. Ela nunca entrou aqui. Quando a conheci, ela fumava. Depois parou. Há alguns meses re-começou a fumar.

Imagino que para não incomodar as pessoas da casa, ela tenha escolhido esse lugarzinho no quintal para exercer seu habito detestável. Fica exatamente do lado de uma das janelas laterais da minha casa que deixo sempre aberta, pois é onde fica a gaiola do coelho.

O cheiro entra por lá, percorre o corredor e vem me incomodar aqui, no meu quarto.

Fumantes acham que somos frescos. E especialmente que eu sou fresca, pois minha sensibilidade olfativa é mesmo excepcional (um neurologista idiota me pediu uma ressonância do cérebro inclusive, pois é uma sensibilidade anômala). Mas eu acho que existem outros componentes nessa história, para os dois lados.

Da parte deles é meio óbvia: a adicção e o egoísmo reprimem a racionalidade. Fumaça não é um sólido que se pode conter – ela se espalha! Naturalmente vai incomodar, a não ser que se fume num local fechado com exaustor dotado de filtro.

Da minha parte é mais complicado. Sim, minha sensibilidade olfativa é excepcional. Mas cheiros ruins são processados pela amigdala, o centro de processamento de sinais de stress no cérebro. Esse órgão modula nossa sensibilidade, de modo que ela aumenta ou diminui conforme o stress. Se estamos sozinhos em casa e ouvimos um barulhinho, este sinal dispara uma série de reações neuro-químicas que aumenta nossa sensibilidade para o próximo barulho. O quanto aumenta deve variar conforme a resposta de stress. O mesmo se dá com cheiros.

O cheiro de cigarro é um dos maiores deflagradores de stress em mim. Tenho uma péssima história com fumantes que foram abusivos comigo ao longo da vida, impondo seu hábito, me hostilizando e me humilhando. Isso desde a primeira infância e percorrendo toda a adolescência e idade adulta. Na infância isso ocorria na família onde simplesmente meus protestos eram ignorados e eu recebia olhares de raiva e desprezo. Na adolescência, foi com a ultra-esquerda. Por definição, naquela época, comunista fumava e considerava o protesto de qualquer um contra o cigarro algo pequeno-burguês e “coisa de americano”. Alguns tinham histórias que contavam orgulhosamente de ter entrado em pequenos elevadores com o cigarro aceso para confrontar “reacionários”.

Acho que com os anos isso contribuiu para que minha sensibilidade aumentasse, já que o cheiro de cigarro, ainda que eu não queira, arrasta consigo mil lembranças de violência.

Não consigo deixar de considerar o hábito não apenas imbecil, nojento e auto-destrutivo, mas uma agressão pessoal.

E agora, o que eu faço com a vizinha fumante?...

 

Marilia

 

BodyStuff

 

29th-Dec-2006 09:45 pm - Agressões gratuitas na rua
sitting

Há cerca de um mês, eu corria nas ruas do meu bairro, um condomínio de classe média entre São Paulo e Osasco, quando algo perturbador aconteceu. Ainda era dia, pois lembro que estava tudo claro. Meu percurso é bem padronizado – desenvolvi esse trajeto ao longo de anos em função da inclinação das calçadas e suavidade das subidas. Deve ter cerca de três quilômetros. Num certo ponto, havia uma aglomeração na frente de uma das casas, claramente uma festa. Vários jovens, cuja idade devia ir de uns 17 a uns 20 anos, bebiam ou apenas conversavam na rua. Quando eu passei pela primeira vez, alguns gritaram provocações que achei inocentes. Três ou quatro deles correram ao meu lado por uns 40 metros, pediram o fone do meu ipod para saber o que eu escutava. Achei inofensivo. Quando eu passei pela segunda vez, fizeram o mesmo e alguns perguntaram o que eu fazia, num tom jocoso, insinuaram que eu era bolada, algo a respeito de homens, e eu respondi no mesmo tom. Disse que era atleta, que tinha namorado e meu namorado era grande - que mulher gosta é de homem grande. Na terceira vez em que passei por ali, um deles, o menorzinho e mais magrinho, com uma expressão que indicava chapação total (se só de álcool, não sei), me interceptou, quebrou uma garrafa de cerveja no chão e me desafiou a pisar no vidro: “você não é bolada? Então pisa no vidro!”. Aquele sozinho, seria moleza para mim. Dois tapas e já era. Mas em segundos me vi cercada de uma dezena de meninos, sorrindo com ar excitado, esperando o desenrolar daquela provocação. Me dei conta imediatamente do perigo da situação: um ou dois eu pegava, mas em dez, fariam um belo estrago em mim. Como estavam todos drogados e portanto não teriam como me perseguir, desviei, continuei correndo e não passei mais por ali.

Teria sido a agressão uma resposta ao que eu disse sobre mulheres preferirem homens grandes? Porque claro que não é verdade, foi apenas uma resposta irônica tão agressiva quanto às brincadeiras que eles faziam comigo, que, apesar de aparentemente inofensivas, eram agressões. O que eu não esperava é que aquele confronto evoluísse para algo mais físico.

Uns quatro meses antes disso, no mesmo bairro, também passei pela frente de uma casa onde se iniciava uma festa. Todos da rua, em geral jovens, gritaram coisas agressivas para mim. Evitei a rua.

Mais para trás ainda, há cerca de um ano e meio, quando eu ainda era muito menos musculosa que hoje, um homem velho e bastante acabado atiçou o cachorrinho contra mim enquanto eu corria. Me assustei – a gente sempre se assusta quando está correndo com fone de ouvido, pois não se fica tão atenta para o ambiente. Era na avenida principal, o velho caminhava com seu cachorrinho, eram 5:30h ou 6h da manhã e o cachorrinho correu para morder minha canela. O velho estimulou: “pega, morde ela!”. Eu respondi que gostava muito de cães, mas mataria o cachorro dele se fosse mordida. O velho riu de mim, com uma expressão de ódio.

O que todas essas situações têm em comum é a agressão gratuita que sofri exatamente no mesmo contexto: correndo sozinha, escutando música, pelas ruas do bairro em que moro. Evito correr em lugares estranhos por medo de agressões semelhantes sem que eu tenha uma rota de fuga na cabeça. Disso se conclui que o ato de correr na rua com fone de ouvido, em si, deflagra tais comportamentos em certos tipos de pessoa. Que tipo? Não sei: entre as três situações, houve gente de todas as idades e gêneros. Homens parecem ser mais vocais nas agressões. Num dos casos, os xingamentos das mulheres foram na onda dos homens.

Seria isso uma reação a quem corre nas ruas? Como se estivéssemos cometendo algum tipo de ataque ao pudor, expondo uma relação transgressora com nossos próprios corpos?

Mas pensei em outras situações. Pensei na estranha história do homem fraco e franzino que ficou fascinado por mim numa tarde numa academia de classe média em que eu treinava e, depois, descobrindo meu site, teve um surto de ódio e me escreveu vários e-mails ofensivos.

Não quero nem incluir nessa reflexão as agressões que ocorrem no ambiente virtual, porque essas são estimuladas por fotografias, e não pela minha presença física. Fazem parte de um quadro ainda mais amplo de reação à imagem. Se feminina ou não, atlética ou não, musculosa ou não, eu me pergunto.

Penso que essas agressões são estimuladas por uma mistura de sentimentos ambivalentes, ambivalência que talvez seja o combustível para mais ódio: a rejeição a nossos hábitos e/ou estética e a inveja dos mesmos, a exposição – involuntária da nossa parte – da alienação corporal deles, agressores. Talvez um pouco a condição sádica de intimidar alguém que está só, quando os agressores estão em grupo (ou acompanhados por um cachorro). Talvez o machismo que se ofende diante de mulheres desacompanhadas.

Não acho que isso tudo seja tão diferente da agressão que minha filha e suas amigas sofreram anteontem na praia. Três adolescentes, mulheres, desacompanhadas de homens. Mulheres que jamais aceitariam a aproximação sexual dos agressores – a barreira cultural ali era imensa, elas agem sempre de forma não receptiva (eu as conheço), sempre defensiva (pois são muito jovens e têm medo). Mulheres que, ainda que em silêncio e passivamente, os rejeitam.

Então, na verdade, nenhuma agressão é realmente gratuita. Numa sociedade tão complexa e conflitiva como a nossa, nossa simples presença ou exercício de um hábito que nos parece não invasivo (afinal, não fede, não polui, não tem som, não destrói nada) é uma ofensa. O que existem é agressões injustas, covardes ou simplesmente incompreensíveis sem um esforço analítico. Uma agressão machista de forma alguma é gratuita, pelo contrário: ela é motivada por um desejo absolutamente bem articulado de dominação de um gênero pelo outro. Pode ser (e é) covarde. Injusta. Mas gratuita não é.

Assim, diante de uma agressão, acho uma boa idéia tentar entender sua estrutura. Deixar barato, só se for a saída mais lógica. A priori sou a favor de punição e retalição, sempre, contra atos covardes, opressivos e injustos. Mas que vale a pena ficar de olho porque perigo sempre existe, isso vale: agressões não são gratuitas e seus motivos podem ser poderosas alavancas simbólicas de dominação e confronto, e guerra não é brincadeira.

 

Marilia

 

BodyStuff

 

 

This page was loaded Nov 28th 2009, 11:18 pm GMT.