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9th-Sep-2007 10:54 am - Senhor dos Anéis
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Por coincidência, ontem assisti o filme “The Peaceful Warrior” (Poder além da vida) logo depois de ler a notícia sobre a vitória de Diego Hipólito no Campeonato Mundial de Ginástica em Stuttgart, Alemanha.

“The Peaceful Warrior” é um filme baseado na experiência do ex-ginasta americano Dan Millman, que sofreu um acidente de moto e inúmeras fraturas às vésperas das seletivas para os jogos olímpicos. Antes um garoto talentoso, porém superficial e mesquinho, orientado pela “corrida do ouro” da mentalidade convencional do esporte de alta performance, Dan se transforma a partir de insights derivados das artes marciais e filosofias orientais.

O filme é “mais ou menos”, não sei como são os livros (Millman escreveu vários) e o site (http://www.danmillman.com/ ) é muito ruim. Fiquei com a triste impressão que toda aquela descoberta e jornada interior levaram Dan Millman a se tornar apenas mais um mercador da auto-ajuda New Age. Não vejo problema nenhum em aceitar recompensa financeira pelo trabalho de ensinar e pelo valor de informação profunda, mas um mínimo de generosidade deveria vir junto com esse despertar para “algo maior”.

Em algum ponto do filme, os amigos/rivais de Dan Millman comentam sarcasticamente as tentativas do atleta em criar um elemento de rotina avançado como sua busca para se tornar “o senhor dos anéis” (sua melhor modalidade eram as argolas).

Vendo os feitos de Diego Hipólito, vindo de um país cuja população mal sabe o que é ginástica olímpica, com apoio duramente conquistado com anos de busca e treino, fico pensando se esse foco e controle todo não estão lá, em todo grande atleta, mesmo que ele não tenha as palavras para expressá-lo. Mesmo que não tenha consciência disso tudo.

Existe o talento físico, também chamado pelo grupo de Harvard de múltiplas inteligências de inteligência física. Digamos que parte disso seja genético e se expresse em atividade neural involuntária. Até parte desse argumento eu vou. Mas especialmente em alguns esportes, a altíssima performance requer mais que talento, mais que genética, mais que suplemento, mais que alimentação, mais que fármacos – requer habilidades mentais. Como eu disse, em alguns esportes mais que em outros, acho que os atletas de elite têm essas habilidades, quer saibam ou não.

Esses atletas são todos Senhores dos Anéis. Diego é um deles.

 

Marilia

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Antes de abandonar a carreira acadêmica, eu fui várias coisas, mas minha marca mais forte, ou recente, ou cientificamente adulta eu deixei na área de “estudos sociais da ciência”. Faz parte da minha identidade e da forma como vejo o mundo. Algumas publicações “experimentais” sobre a representação social da ciência, legimidade e outros itens da agenda desta área são antológicos (até mesmo por serem “meta-experimentos”) e talvez o mais de todos seja aquele conhecido como “Milgram experiment”. Em 1963, Stanley Milgram conduziu um experimento para testar a obediência das pessoas a autoridades externas, se conflitantes com suas convicções morais. O experimento foi projetado da seguinte forma: voluntários foram recrutados para participar de um estudo (“fake”) sobre aprendizado e punição. Eles deveriam aplicar um eletro-choque em um sujeito em outra sala em quem um teste estava sendo aplicado. Se o sujeito acertasse, o voluntário deveria ler a questão seguinte. Se errasse, deveria aplicar o choque. A cada erro, a voltagem deveria aumentar, até níveis potencialmente letais. Esperava-se que apenas 1,2% de indivíduos excessivamente sádicos chegassem a níveis letais de voltagem. O experimento, no entanto, demonstrou que 65% dos participantes o fizeram, ainda que alguns, relutantes. O “coordenador do estudo”, vestido de jaleco branco, supostamente um biólogo, estimulava o voluntário a continuar a cada hesitação, sem demonstrar emoção.

A discussão em torno dos resultados deste estudo perdura até hoje. Uma das conclusões principais é que, em nome de uma autoridade muito forte, qualquer outro entrave ao comportamento é suspenso. A autoridade, ou fonte de legitimidade da ordem, para os voluntários, era a soberana CIÊNCIA.

Nos estudos sobre placebo publicados até hoje, muito provavelmente é a mesma fonte de legitimidade que permitiu imprimir a certeza de eficácia na mente dos sujeitos experimentais.

Pois bem: a semana retrasada, no meu treino de supino, executei 4 séries de 4 repetições com 68kg (sem equipamento). Utilizando duas ou três calculadoras on-line (existem inúmeras no super-site www.bodybuilding.com , todas baseadas em fórmulas devidamente avalisadas e bem publicadas), cheguei a um valor de 1RM de 75kg. Todos nós que estudamos um pouco mais sobre treinamento de força sabemos que estas formulas foram criadas por análises de regressão, em pesquisas bem conduzidas, e têm uma precisão particularmente alta para indivíduos treinados e no supino (Pereira e Gomes 2003, Chromiac et al).

Na semana seguinte, fiz um pequeno teste de carga e cheguei num levantamento de 1RM de previsíveis 75kg.

A pergunta é: o que são esses 75kg? São realmente minha carga máxima executável em condições de academia, com uma perna quebrada levantada? São mais uma comprovação de que a fórmula descreve bem o fenômeno biológico? Ou são o produto da minha adesão inconsciente a tudo que tenha sido bem publicado, numa revista científica de boa qualidade, por causa do tipo de formação que recebi? Se eu fosse religiosa, valeria mais a previsão de um sacerdote que dissesse: “seu 1RM é 70kg” ou “82kg”? Nesse caso, qual seria a carga que eu de fato executaria naquele dia? Se eu tivesse um técnico em quem confiasse cegamente e que me dissesse: “você pode levantar 85kg raw porque minha experiência diz que sim”. Valeria mais do que a fórmula?

Nunca saberemos. O fato é que eu sou essa Marilia cientista, fruto da mesma sociedade onde 65% das pessoas confia na ciência a ponto matar seu semelhante em nome dela, uma pessoa sem nenhuma formação religiosa e sem técnico. A “crença” que fui capaz de gerar em mim mesma foi criada com a ferramenta que terceiros, que nem conheço, geraram em condições experimentais que não faço idéia.

Minha opinião? Foi a crença. Muito poderosa. Mas pode ser substituída com bastante liberdade por outras, desde que eu assim decida. E agora?

 

Marilia

BodyStuff

 

Referências bibliográficas:

 

O experimento de Milgram

 

Milgram, Stanley (1963). "Behavioral Study of Obedience". Journal of Abnormal and Social Psychology 67: 371–378. (link para o *.pdf do texto integral).

 

PEREIRA, Marta Inez Rodrigues and GOMES, Paulo Sergio Chagas. Muscular strength and endurance tests: reliability and prediction of one repetition maximum - Review and new evidences. Rev Bras Med Esporte. [online]. 2003, vol. 9, no. 5 [cited 2007-07-23], pp. 325-335. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-86922003000500007&lng=en&nrm=iso  ISSN 1517-8692

 

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E então, o que é que existe entre um esforço máximo 100% seguro (aquele que você faz sob quaisquer circunstâncias) e o “esforço máximo absoluto” (vamos chamar assim a expressão de força de um indivíduo sob desinibição total, na linha do efeito “Hulk”)? Barreiras mentais, seqüenciais, em decrescente grau de exeqüibilidade. A primeiras barreiras, a gente vê corriqueiramente sendo superadas em campeonatos. Mas o mesmo indivíduo que uma hora supera a barreira, depois não “reproduz o efeito”.

Frustrado, Fernando perguntava: “então, qual é o mecanismo, o que está por trás da desinibição? Por que às vezes funciona, às vezes não?”.

Fernando (Canteli) é um atleta de powerlifting, dono de recordes importantes e duradouros e um investigador destes temas obscuros. Há cinco anos procura informação sobre o assunto, sem sucesso. Além disso, foi quem propiciou minha mais recente e importante quebra de barreira mental.

Eu sou especialista em informação técnica e científica. Se alguém deveria encontrar o que quer que houvesse publicado a respeito em pesquisa, seria eu: não achei. Procurei o termo que meu colega biomecânico me deu: “reserva autônoma protegida”. Nada. Fiz todas as traduções possíveis dessa expressão para o inglês. Nada. Lembrei de um livro de ficção científica chamado “Skull Session”, de Daniel Hecht, supostamente baseado em um fenômeno real muito inconclusivo às vezes chamado de hiper-dinamismo ou hiper-cinesia. Variei ainda mais meus termos de busca, incluindo: “Hysterical strength”, “Psychomotor agitation”, “Akathisia”, “Hyperkinesis” e “hyperdynamism”. Nada.

Nada? Nada de publicado. Tenho certeza que alguém sabe de tudo isso. Como muita coisa importante e potencialmente impactante, fica escondido um tempo no... exército! Então, brincando, falei para o Fernando: “ou a gente entra para o exército israelense, ou buscamos outra via, porque entender a desinibição pelo fenômeno absoluto é um beco sem saída científico”.

Como nenhum de nós dois tem intenção de ingressar no exército israelense, optamos pelo plano B. Qual seja: colecionar fatos, relatos e experiências e buscar relacioná-los com nossa prática. O argumento segue a seguinte linha:

1.       casos em que pessoas sem treinamento de força exercem um esforço máximo imprevisível são relatados (achei alguns fóruns onde pessoas falavam de um tio que levantou um trator com o filho embaixo, ou uma avó que jogou o freezer pela janela, coisas assim). Esses esforços vão de 10 a 100 vezes o que se prevê como o esforço máximo do indivíduo. Assim, o fenômeno fisiológico em si é real, embora raro. Eu não saberia dizer (e nem seria possível mensurar) qual a porcentagem de mães capazes de levantar um Palio com o filho potencialmente esmagado embaixo sob risco de explosão e incêndio. Seria o experimento mais cruel já inventado.

2.       Especula-se que esse fenômeno ocorre por uma “desinibição” – ou seja, a expressão de “força máxima absoluta” é permanentemente inibida em condições normais. Sob stress extremo, pode ou não ser desinibida.

3.       “Stress” é algo já um pouco mais bem compreendido endócrino-fisiologicamente e envolve uma cadeia de reações hormonais (veja excelente revisão bibliográfica por Charmandari et al, 2005). Do ponto de vista neural, no entanto, nem tanto. Eu diria que só parte da história está contada. Já “stress extremo” não é compreendido em humanos, e não sei como é em animais. É só uma questão de imaginar a dificuldade experimental ou de campo (coletar o sangue de pessoas chegando em pânico em emergências hospitalares sem uma perna, com o filho morto ou com um tiro no peito e ver o que rola com os hormônios? Fazer uma ressonância jogo rápido no cérebro delas? Não dá).

4.       Atletas de alto desempenho podem usar “psyching up”, técnica ou intuitivamente: se auto-estimulam (ou o técnico, ou os amigos) aumentando o nível de stress (http://www.mindtools.com/psychup.html ). Uma sensacional que li é que o nadador podia se “estimular” imaginando nadar sendo perseguido por um tubarão. Não é piada. No entanto, as evidências científicas mostram que esse tipo de “auto-motivação” é pouco eficiente no que diz respeito aos ganhos em performance (www.bodystuff.org/psychingupbibliografia.html). Mesmo assim, é o que a maioria dos atletas brasileiros e latino-americanos de powerlifting utiliza como forma de favorecer o sucesso nos levantamentos.

5.       Outros atletas de alto desempenho usam estratégias que deliberadamente afastam a emotividade (precisamente o oposto do psyching up mencionado). Muitos dos atletas de maiores marcas no mundo estão nesta categoria. Em trocas de correspondência e discussões em fóruns internacionais, o que me disseram é que o foco e a estratégia de manipular a própria percepção eram mais eficientes.

6.       Atletas de artes marciais, particularmente kung-fu, realizam tarefas que poderiam ser classificadas na categoria de alto desempenho de força. Nessas tradições, a estratégia também é oposta ao “psyching-up”. A explicação dos praticantes é de que se trata de aprender a controlar o Qi Gong (http://en.wikipedia.org/wiki/Qi ), uma forma dinâmica de uma energia sutil que faz sentido dentro do sistema cultural em questão.

 

Quão mais longe iremos com o emprego das técnicas tradicionais de psyching-up em nosso esporte (tapão, grito, rock muito alto, puxão de orelha)? Drogas: efedrina é igual a aspirina em competição de powerlifting. Serve para aumentar exatamente a resposta de stress. Quanto mais efedrina ou anfetamina funciona para aumentar marcas? E outras drogas? Um amigo fez um auto-experimento (de grande periculosidade): dissolveu hemogenin em dose muito alta em um veículo para aplicação intra-venosa, aplicou e foi treinar. O que descreveu foi uma experiência de estado alterado de consciência, semi-alucinatório. E uma força sobre-humana. Essa pessoa pode até ter feito algo muito perigoso, mas nunca repetiu porque sabe dos riscos (os médicos mais brilhantes do século XVIII e XIX muitas vezes fizeram coisas mais sem noção ainda, então não reclamem do meu amigo).

O caminho de mais e mais stress, de abrir os canais da desinibição pelo reflexo de luta, parece ser pouco interessante: se usado em dose fisiologicamente administrável, não leva a grandes resultados. Se usado pra valer, mata. Não é por acaso que é um canal protegido ao longo dos últimos milhões de anos de evolução.

Já a outra via é um enigma. Conhecemos pouco sobre estas tradições e, pelo abismo cultural, não compreendemos seus conceitos. Mas podem ter utilidade para nossos objetivos.

Então Fernando retomou a conversa do dia em que eu quebrei minha última barreira mental, a dos 80kg, com a ajuda dele. Ele me sentou numa cadeira branca (enfatizou o branco), me isolou das influências externas, não deixou que ninguém falasse comigo e repetiu comandos simples como “seu objetivo é realista”, “é um peso que você faz”. Ontem me perguntou o que se passou na minha cabeça. Eu sei: “tenho tesão por isso”. Só isso: prazer.

Então concluímos que não se trata de “pensar” na tarefa, uma concentração racional e consciente. E tampouco de fingir que não existe. Trata-se de FOCO, mas não um foco racional. Foco é não ter nada na mente exceto a experiência em si, o movimento. Talvez pelas minhas condições de imobilizada, a analogia mais próxima que me vem à mente é sexo: durante uma trepada, se você se concentrar racionalmente na intenção de ter um orgasmo (“agora quero gozar”), certamente não vai conseguir. Se, por outro lado, se distrair (digamos, uma pilha de livros mal equilibrada cai da estante e derruba o copo com água da mesinha de cabeceira), também não vai conseguir. O foco necessário ao orgasmo é estar total e completamente PRESENTE no momento – presente e no presente. Não existe mais nada, e não existe outro tempo. Um levantamento recorde é um orgasmo (acho linda a comparação, pois adoro sexo e adoro powerlifting – os dois combinam muito bem).

 

Deixando o sexo de lado, tudo isso não é muito diferente do lado escuro e o lado claro da Força: os cinco mandamentos do lado escuro da força são:

 

Peace is a lie; there is only passion.

Through passion, I gain strength.

Through strength, I gain power.

Through power, I gain victory.

Through victory, my chains are broken.

The Force shall free me.

 

A paz é uma mentira; só há paixão.

Através da paixão, ganho força.

Através da força, ganho poder.

Através do poder, ganho a vitória.

Através da vitória, minhas correntes são quebradas.

A Força me libertará.

 

Pois é, liberta sim. Mas na vida real, não dá para virar o Darth Sidius. E se desse, será que queremos?... Já o lado Jedi é kung-fu total: a força está lá para todo o universo. Libertando-se de paixões, ódios, medos, distrações, é possível empregar a força de maneira muito poderosa.

Acho que nessa eu continuo na minha linha Padawan. Vamos para nossos big benches, big squats e tudo mais, mas na paz e no foco. Tenho a impressão de que esse é o caminho mais realista (pois o outro é meio ficcional: adrenar mais do que se adrena atualmente, só com droga num nível que realmente pode ser letal), mais saudável e mais promissor. Só que vai dar um trabalhão para descobrir como chegar lá.

Não temos pressa.

 

Marilia

BodyStuff

 

 

Referências:

 

Evangelia Charmandari, Constantine Tsigos, and George Chrousos - ENDOCRINOLOGY OF THE STRESS RESPONSE, Annu. Rev. Physiol. 2005. 67:259–84.

 

Sobre “imagery” e performance:

http://www.bodystuff.org/forcamentebibliografia.html

http://coachsci.sdsu.edu/csa/vol26/table.htm

 

Sobre “psyching up”:

http://www.bodystuff.org/psychingupbibliografia.html

 

Alguns links:

 

http://www.mindtools.com/psychup.html

http://www.mindplusmuscle.com/?training_camp

 

 

10th-Jul-2007 08:03 pm - A barreira mental
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Um dia, lá em Brasília, Caramello me contava sobre a “barreira dos 200” dele. A história é longa, envolve um monte de campeonatos cujos relatos agora estão se misturando na minha cabeça, mas o que ficou para mim foi o seguinte: existiam esses míticos 200kg de supino num horizonte igualmente mítico. A cada campeonato, ele se aproximava dos 200, mas não “atravessava a barreira”. Até que um dia saiu. Corrija-me se estive errada, Caramello, mas foi no Campeonato Gaúcho de Supino (WNPF), em Caxias do Sul /RS, no ano 2000. Daí por um tempo as marcas ficaram entre 185 e 200, mas nunca mais que 200. Aí um dia... saiu 205, num pequeno campeonato (Campeonato Aberto de Bagé – IPF), em 2001. E depois disso as marcas só subiram.

Eu vi o Caramello fazer “oficialmente” (em campeonato, porque em academia para mim não conta) 270kg no Campeonato Carioca de Levantamentos Básicos da CONBRAFA, agora em maio de 2007. Acho que as pedidas foram algo como 240... 250... e 270kg. Não lembro mais.

O peso dele aumentou? Aumentou, acho que uns 20 ou 30kg. O treino melhorou? Melhorou. Mas isso não muda o conteúdo da experiência dele com a “barreira” – os 200 eram uma barreira que ele ultrapassou não com mais peso corporal ou mais isso ou mais aquilo, me parece. Mas algo dentro da cabeça dele foi mudando.

Bom, o Caramello tem só 10 anos mais de powerlifting do que eu só em competição. Eu não tenho nem um ano. Nesse “nem um” ano eu não mudei de categoria de peso. Todos sabem que adaptação neural evolui muito rápido no início e depois entra num plateau. Talvez porque eu não tenha entrado no powerlifting exatamente como uma “iniciante” na musculação e no treinamento de força (já tinha experiência), não foi isso que eu observei. O que eu observei foi uma evolução aos saltos.

Vou deixar de lado esse meu último gigantesco salto de agora, cuja expressão só vou confirmar nos próximos campeonatos, porque é realmente fisiológico: foram mais de 4 semanas de repouso, mudança na alimentação e mudança de ambiente. Aí sim, observei um aumento geral de força em tudo de uns 20-30%.

Os outros saltos não: foram quebras de barreiras mentais. No meu primeiro campeonato, levantei 60kg e a primeira colocada, 62,5kg. Era o brasileiro de supino da IPF de 2006. Eu achei muito bom – havia 6 competidoras na categoria de 56kg e eu fiquei em segundo lugar. Nesse dia, achava que 70kg eram um absurdo de peso. Completamente impossível. Menos de dois meses depois, 65kg eram muito pouco. E numa Copa São Paulo, validei uma segunda pedida com 72,5kg. A terceira pedida era de 82,5kg e dizem que subiu, mas não finalizou. Para mim não aconteceu nada. Só a barra já me apavorou. Eu jamais tinha segurado na mão uma barra com 80kg. Os 80kg não existiam dentro da minha cabeça.

Até que me dei conta de que 80kg faziam parte do meu corpo de força. Integrei os 80kg. Sabia que fazia PELO MENOS isso, se não muito mais. E então fiz 81kg válidos em um campeonato... depois 82,5kg válidos... mas não 90kg.

O que mudou? Meu peso apenas diminuiu entre o primeiro campeonato, dos 60kg, e o último, dos 82,5kg. Mudou meu treino. Mudou minha técnica, mas não muito: minha técnica ainda é podre. Mas o que mudou mesmo foi a BARREIRA MENTAL. Agora eu sei que 80kg é o mínimo. Calculei, ontem, pelo meu atual peso “raw” (sem equipamento), somando 32% de carry-over da camisa suporte, que meu supino é de 99kg, ou seja, 100kg. Assim, RACIONALMENTE, eu sei que, no estilo chapadão, IPF, sem grandes pontes, 100kg saem. O que eu não sei ainda é se esses 100kg estão integrados à minha representação de força.

Mas... e os 140kg no board 6? Ah, mas é outra técnica. Nessa técnica é “normal” fazer isso tudo. É normal? Não é. Que BOM que eu não sabia que não era. Se eu soubesse que 140kg eram um puta peso, não faria. Mas quando fui treinar em Brasília, fui preparada para achar 120, 140kg “normal”. Era “normal” porque eu não tinha idéia do que se passava com outras levantadoras leves e porque três praticantes haviam previsto algo nessa linha para mim. Quando o Caramello colocou a barra com 140kg na minha mão, eu achava que ele SABIA que ia sair. Então eu SABIA que ia sair. E saiu.

Como é que hoje eu sei que não é “normal”? Porque postei num fórum internacional onde um monte de gente conhece e pratica a técnica e houve um “ahhhh!!!” de espanto.

Isso me leva a pensar como são criadas essas barreiras mentais.

Anedoticamente (porque não existem estudos sérios publicados a respeito), todos sabemos que a força real que temos é infinitamente maior do que a que expressamos. É a tal “reserva autônoma protegida” sobre o que ninguém publica nada, como se fosse segredo militar (talvez seja). É a famosa situação em que a frágil mãe levanta um Chevette para salvar a vida do filho esmagado. Se essa mulher não é capaz de levantar nem 60kg do chão, como levantou 600kg? Porque naquele momento, a “vozinha do não” foi anulada. A INIBIÇÃO da força foi temporariamente suspensa sob o stress supremo.

Entre nossa força treinada com as melhores técnicas do mundo e a expressão da reserva autônoma protegida há um universo a percorrer. Digamos que atualmente eu supine, no tradicional, 100kg e em técnicas mais avançadas, 140kg. Mas que para salvar a vida da minha filha eu supine, pelo andar da construção, um bloco de concreto de 700kg. Ninguém quer liberar a inibição e fazer uso total da reserva protegida: morreríamos esmagados por nossa própria força. Mas o que existe entre nossa máxima expressada e essa força real? Minha resposta é: barreiras mentais.

E como tudo na vida desses animais complexos que somos, sua dissolução é uma combinação de processos individuais e coletivos (sociais). Eu já tenho, dentro de mim, 100kg chapados e 140kg arcados. Corroborando isso, tenho algumas vozes. Tenho os três do IronAsylum DF falando desde 140kg até delirantes 180kg. Tenho minha amiga Erica, a melhor supineira da IPF, me dizendo que meus 100 estão para sair. Tenho meus próprios cálculos totalmente objetivos. Hoje, 100kg é uma barreira semi-vencida, pois vencida dentro da minha cabeça. Falta “oficializar” num campeonato.

Mas o que pode impedir essa dissolução? Medo. Vozes de origem diversa dizendo que aquilo é inatingível, é demais, é impossível. Há dois meses, disse ao meu então técnico que meu sonho era quebrar o recorde absoluto da categoria na IPF-BR que era de 107kg. Maior que o recorde das categorias de peso maiores. Ele me olhou com um misto de incredulidade e desprezo e disse ironicamente “110kg?!! Boa sorte...”. Ou seja: “só com sorte mesmo, porque fisicamente isso é impossível para você”. Ora, não é! Não, ele não é um cara do mal. Apenas usou a lógica: na frente dele estava uma levantadora de 56kg, 44 anos e iniciante no esporte. O recorde era de uma veterana (aos 40 anos, Miriam Janete já era veterana), super talentosa e criticada por muitos, a boca pequena, por uso de recursos farmacológicos (eu a admiro infinitamente e é um orgulho ter quebrado o recorde master dela). Mas esqueceu que essa mesma levantadora (eu) evoluiu, na frente dele, de forma pouco usual. Esqueceu de desaprender o que aprendeu, de admitir o inesperado e o novo. E esqueceu que essa levantadora pequena é no mínimo diferente do ponto de vista neurológico e mental.

Anteontem, falando com Deni, ouvi que os objetivos máximos dele eram a realização no esporte. Pensei um pouco e perguntei: “você quer ser o melhor levantador? O super levantador?” Ele respondeu: “sim!”. E eu usei o kit completo do meu jargão new age, nesse caso com toda a consciência de sugestão do mundo: “seu desejo é uma ordem, Deni, está cumprido: a barra é apenas um monte de elétrons voando no nada – o que a empurra é a sua cabeça”.

Acredito nisso? Sim e não. Nem ele, nem eu, vamos levantar 550kg num supino nessa vida. Nessa geração. Nesse mundo atual. A barra continua sendo um monte de elétrons, mas não é possível TUDO – não nesse estágio. Quem sabe em alguns anos coisas mais incríveis ainda o sejam, vai saber? O que realmente acredito é que nosso poder de fazer e re-fazer nossos mundos internos e externos é infinitamente maior do que sabemos. E não se trata de auto-sugestão nem de auto-hipnose. Trata-se de desaprender as ilusões do óbvio. O óbvio não existe...

Somos todos X-Men.


Eu, re-fazendo meus ossos de adamantium (minha fíbula, nesse momento)



Eu, Dr. (Coutinho) Gray, mas também Phonix, capaz de levantar qualquer coisa e também de destruir.... tudo.

E você?... 

Marilia

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