Home
Body Stuff
Coisas sobre corpo
Recent Entries 
10th-Jul-2007 08:03 pm - A barreira mental
sitting

Um dia, lá em Brasília, Caramello me contava sobre a “barreira dos 200” dele. A história é longa, envolve um monte de campeonatos cujos relatos agora estão se misturando na minha cabeça, mas o que ficou para mim foi o seguinte: existiam esses míticos 200kg de supino num horizonte igualmente mítico. A cada campeonato, ele se aproximava dos 200, mas não “atravessava a barreira”. Até que um dia saiu. Corrija-me se estive errada, Caramello, mas foi no Campeonato Gaúcho de Supino (WNPF), em Caxias do Sul /RS, no ano 2000. Daí por um tempo as marcas ficaram entre 185 e 200, mas nunca mais que 200. Aí um dia... saiu 205, num pequeno campeonato (Campeonato Aberto de Bagé – IPF), em 2001. E depois disso as marcas só subiram.

Eu vi o Caramello fazer “oficialmente” (em campeonato, porque em academia para mim não conta) 270kg no Campeonato Carioca de Levantamentos Básicos da CONBRAFA, agora em maio de 2007. Acho que as pedidas foram algo como 240... 250... e 270kg. Não lembro mais.

O peso dele aumentou? Aumentou, acho que uns 20 ou 30kg. O treino melhorou? Melhorou. Mas isso não muda o conteúdo da experiência dele com a “barreira” – os 200 eram uma barreira que ele ultrapassou não com mais peso corporal ou mais isso ou mais aquilo, me parece. Mas algo dentro da cabeça dele foi mudando.

Bom, o Caramello tem só 10 anos mais de powerlifting do que eu só em competição. Eu não tenho nem um ano. Nesse “nem um” ano eu não mudei de categoria de peso. Todos sabem que adaptação neural evolui muito rápido no início e depois entra num plateau. Talvez porque eu não tenha entrado no powerlifting exatamente como uma “iniciante” na musculação e no treinamento de força (já tinha experiência), não foi isso que eu observei. O que eu observei foi uma evolução aos saltos.

Vou deixar de lado esse meu último gigantesco salto de agora, cuja expressão só vou confirmar nos próximos campeonatos, porque é realmente fisiológico: foram mais de 4 semanas de repouso, mudança na alimentação e mudança de ambiente. Aí sim, observei um aumento geral de força em tudo de uns 20-30%.

Os outros saltos não: foram quebras de barreiras mentais. No meu primeiro campeonato, levantei 60kg e a primeira colocada, 62,5kg. Era o brasileiro de supino da IPF de 2006. Eu achei muito bom – havia 6 competidoras na categoria de 56kg e eu fiquei em segundo lugar. Nesse dia, achava que 70kg eram um absurdo de peso. Completamente impossível. Menos de dois meses depois, 65kg eram muito pouco. E numa Copa São Paulo, validei uma segunda pedida com 72,5kg. A terceira pedida era de 82,5kg e dizem que subiu, mas não finalizou. Para mim não aconteceu nada. Só a barra já me apavorou. Eu jamais tinha segurado na mão uma barra com 80kg. Os 80kg não existiam dentro da minha cabeça.

Até que me dei conta de que 80kg faziam parte do meu corpo de força. Integrei os 80kg. Sabia que fazia PELO MENOS isso, se não muito mais. E então fiz 81kg válidos em um campeonato... depois 82,5kg válidos... mas não 90kg.

O que mudou? Meu peso apenas diminuiu entre o primeiro campeonato, dos 60kg, e o último, dos 82,5kg. Mudou meu treino. Mudou minha técnica, mas não muito: minha técnica ainda é podre. Mas o que mudou mesmo foi a BARREIRA MENTAL. Agora eu sei que 80kg é o mínimo. Calculei, ontem, pelo meu atual peso “raw” (sem equipamento), somando 32% de carry-over da camisa suporte, que meu supino é de 99kg, ou seja, 100kg. Assim, RACIONALMENTE, eu sei que, no estilo chapadão, IPF, sem grandes pontes, 100kg saem. O que eu não sei ainda é se esses 100kg estão integrados à minha representação de força.

Mas... e os 140kg no board 6? Ah, mas é outra técnica. Nessa técnica é “normal” fazer isso tudo. É normal? Não é. Que BOM que eu não sabia que não era. Se eu soubesse que 140kg eram um puta peso, não faria. Mas quando fui treinar em Brasília, fui preparada para achar 120, 140kg “normal”. Era “normal” porque eu não tinha idéia do que se passava com outras levantadoras leves e porque três praticantes haviam previsto algo nessa linha para mim. Quando o Caramello colocou a barra com 140kg na minha mão, eu achava que ele SABIA que ia sair. Então eu SABIA que ia sair. E saiu.

Como é que hoje eu sei que não é “normal”? Porque postei num fórum internacional onde um monte de gente conhece e pratica a técnica e houve um “ahhhh!!!” de espanto.

Isso me leva a pensar como são criadas essas barreiras mentais.

Anedoticamente (porque não existem estudos sérios publicados a respeito), todos sabemos que a força real que temos é infinitamente maior do que a que expressamos. É a tal “reserva autônoma protegida” sobre o que ninguém publica nada, como se fosse segredo militar (talvez seja). É a famosa situação em que a frágil mãe levanta um Chevette para salvar a vida do filho esmagado. Se essa mulher não é capaz de levantar nem 60kg do chão, como levantou 600kg? Porque naquele momento, a “vozinha do não” foi anulada. A INIBIÇÃO da força foi temporariamente suspensa sob o stress supremo.

Entre nossa força treinada com as melhores técnicas do mundo e a expressão da reserva autônoma protegida há um universo a percorrer. Digamos que atualmente eu supine, no tradicional, 100kg e em técnicas mais avançadas, 140kg. Mas que para salvar a vida da minha filha eu supine, pelo andar da construção, um bloco de concreto de 700kg. Ninguém quer liberar a inibição e fazer uso total da reserva protegida: morreríamos esmagados por nossa própria força. Mas o que existe entre nossa máxima expressada e essa força real? Minha resposta é: barreiras mentais.

E como tudo na vida desses animais complexos que somos, sua dissolução é uma combinação de processos individuais e coletivos (sociais). Eu já tenho, dentro de mim, 100kg chapados e 140kg arcados. Corroborando isso, tenho algumas vozes. Tenho os três do IronAsylum DF falando desde 140kg até delirantes 180kg. Tenho minha amiga Erica, a melhor supineira da IPF, me dizendo que meus 100 estão para sair. Tenho meus próprios cálculos totalmente objetivos. Hoje, 100kg é uma barreira semi-vencida, pois vencida dentro da minha cabeça. Falta “oficializar” num campeonato.

Mas o que pode impedir essa dissolução? Medo. Vozes de origem diversa dizendo que aquilo é inatingível, é demais, é impossível. Há dois meses, disse ao meu então técnico que meu sonho era quebrar o recorde absoluto da categoria na IPF-BR que era de 107kg. Maior que o recorde das categorias de peso maiores. Ele me olhou com um misto de incredulidade e desprezo e disse ironicamente “110kg?!! Boa sorte...”. Ou seja: “só com sorte mesmo, porque fisicamente isso é impossível para você”. Ora, não é! Não, ele não é um cara do mal. Apenas usou a lógica: na frente dele estava uma levantadora de 56kg, 44 anos e iniciante no esporte. O recorde era de uma veterana (aos 40 anos, Miriam Janete já era veterana), super talentosa e criticada por muitos, a boca pequena, por uso de recursos farmacológicos (eu a admiro infinitamente e é um orgulho ter quebrado o recorde master dela). Mas esqueceu que essa mesma levantadora (eu) evoluiu, na frente dele, de forma pouco usual. Esqueceu de desaprender o que aprendeu, de admitir o inesperado e o novo. E esqueceu que essa levantadora pequena é no mínimo diferente do ponto de vista neurológico e mental.

Anteontem, falando com Deni, ouvi que os objetivos máximos dele eram a realização no esporte. Pensei um pouco e perguntei: “você quer ser o melhor levantador? O super levantador?” Ele respondeu: “sim!”. E eu usei o kit completo do meu jargão new age, nesse caso com toda a consciência de sugestão do mundo: “seu desejo é uma ordem, Deni, está cumprido: a barra é apenas um monte de elétrons voando no nada – o que a empurra é a sua cabeça”.

Acredito nisso? Sim e não. Nem ele, nem eu, vamos levantar 550kg num supino nessa vida. Nessa geração. Nesse mundo atual. A barra continua sendo um monte de elétrons, mas não é possível TUDO – não nesse estágio. Quem sabe em alguns anos coisas mais incríveis ainda o sejam, vai saber? O que realmente acredito é que nosso poder de fazer e re-fazer nossos mundos internos e externos é infinitamente maior do que sabemos. E não se trata de auto-sugestão nem de auto-hipnose. Trata-se de desaprender as ilusões do óbvio. O óbvio não existe...

Somos todos X-Men.


Eu, re-fazendo meus ossos de adamantium (minha fíbula, nesse momento)



Eu, Dr. (Coutinho) Gray, mas também Phonix, capaz de levantar qualquer coisa e também de destruir.... tudo.

E você?... 

Marilia

BodyStuff

sitting

 

Antes de mais nada, esse é um texto de defesa de um projeto, de um ideal e de um amigo. Pela primeira vez uso este espaço para tentar mobilizar pessoas a agir, e não apenas a pensar. Portanto, se você está lendo isso, termine o texto e por favor: faça algo. As opções serão sugeridas.

 

O Brasil hoje é o 4º mercado mundial de fitness, se considerado o número de academias, e 3º, se considerado o número de freqüentadores. Os dados já defasados de 2005 mostravam que o país possuía mais de 7000 academias, com uma média de 610 alunos cada e mensalidades médias de R$ 80,00. O faturamento anual em 2005 era de R$ 3,25 bilhões. A distribuição das academias pelo país é a seguinte, segundo a Fitness Brasil:

           

Sudeste

4.840

Rio Grande do Norte

47

Norte

133

São Paulo

3.200

Paraíba

39

Pará

49

Rio de Janeiro

900

Alagoas

31

Rondônia

27

Minas Gerais

664

Sergipe

26

Amazonas

24

Espírito Santo

76

Maranhão

23

Acre

18

Sul

991

Piauí

18

Amapá

8

Paraná

445

Centro-Oeste

653

Roraima

7

Rio Grande do Sul

306

Distrito Federal

263

 

Santa Catarina

240

Goiás

153

Nordeste

705

Mato Grosso do Sul

104

Bahia

315

Mato Grosso

83

Ceará

108

Tocantins

30

Pernambuco

98

 

TOTAL 7.000

(*) Estimativa da Fitness Brasil.

 

Estes números dizem muito, mas também escondem muito. São médias, como dizem epidemiologistas, entre elefantes e mosquitos. Existem algumas academias de grande porte, com estrutura de rede, que conseguem, por isso, cobrar mensalidades altas porém acessíveis à classe média, como a Runner, a Bio-Ritmo e outras em São Paulo. São as chamadas “academias B”. Existem algumas poucas academias que cobram mensalidades altíssimas, oferecem alguns confortos adicionais e servem um público de alta renda. Exemplos, ainda em São Paulo, são a Fórmula ou a Companhia Athletica.

Existem academias menores, chamadas “de bairro”, que hoje em dia disputam a clientela das academias B. Isso ocorre porque algumas academias B, como a Bio-Ritmo, conseguiram oferecer planos bem mais acessíveis, a um custo pouco maior do que as academias de bairro. A disparidade na qualidade e variedade de serviços, no entanto, é grande e tende a aumentar: enquanto as de bairro raramente oferecem natação, os horários de aulas coletivas coreografadas (step, aulas de dança, aeróbicas diversas e todas aquelas frescuras que nasceram com a Body Systems) são restritos e os equipamentos são “bonitinhos mas ordinários”, as academias B têm belíssimas piscinas, aulas variadas e, através de convênios inteligentes, equipamentos de alta qualidade (algumas Runners possuem equipamentos Lifefitness, Cybex, Technogym e Hammerstrength, “top of the line” na categoria). A tendência parece ser a expansão das redes, especialmente com a entrada agressiva da Gold’s Gym no Brasil (com a qual é muito difícil competir em qualquer quesito), a retração das academias de bairro “metidas a bonitinhas” e a especialização de nichos. As academias com algo realmente diferenciado a oferecer tenderão a prosperar, mas são poucas.

Esse é o cenário dos serviços na área de fitness e condicionamento físico para a classe média.

O que a iniciativa privada tem a oferecer ao público C, que não pode pagar mais do que R$ 60,00 por mês? Uma infinidade de pequenas academias de todo tipo de qualidade. São elas que “puxam” a média de mensalidade que a Fitness Brasil obteve para o valor intermediário de R$ 80,00.

Entre elas, existem academias que pateticamente tentam imitar as chamadas “academias de playboy”. Não dá: os equipamentos que imitam a LifeFitness são uma droga, são ergonomicamente mal planejados e só machucam o usuário. Em vez de investir em um bom amigo serralheiro e manter um equipamento funcional e prático, os donos dessas academias enganam a si mesmos. Existem outras que são garagem mesmo: buracos com um par de pesos em que meia dúzia de garotos ensaia treinar. Com sorte, aprendem alguma coisa, já que o melhor laboratório é o próprio corpo. Nessa brincadeira, algumas evoluem para coisas sérias.

Mas é também entre estas academias “de pobre”, com mensalidades em torno de R$ 50,00-60,00, que estão as que considero as melhores academias do país. E digo por que: as academias de rede contratam jovens egressos das faculdades de Educação Física equilibrando uma avaliação sobre um conhecimento técnico que eles nem podem ter de qualidade (pois as faculdades não oferecem, especialmente no que diz respeito ao treinamento de força) com sua aparência (há um padrão estético rigorosamente seguido pelo contratante que favorece moças magras e homens de muscularidade moderada, com baixa gordura corporal). Já as boas academias “de pobre” são produto de sonhos e ideais sérios de atletas e profissionais da atividade física. Quem abre uma academia desse tipo o faz porque acredita no que quer, ama o treinamento, estuda e conhece muito mais do que a grande maioria dos professores de faculdades de Educação Física. Essas pessoas sabem como deve ser um equipamento e parte deles foi feita sob medida, pelo “serralheiro amigo” ou às vezes pelos próprios, como conheço alguns casos.

Amigo: seu músculo não sabe a diferença entre uma anilha emborrachada (que aliás é um inferno para se enfiar nas ridículas barras cromadas das academias A e B) e uma boa anilha de aço, tosca e forte. Nem sabe a diferença entre uma remada baixa numa multi-estação inventada, onde você se senta no chão e puxa o triângulo com facilidade, e outra da Cybex que custa US$ 6.000,00. O custo de US$ 500.000,00 investido para equipar uma sala revestida de carpete com equipamentos Lifefitness, quem paga é você, com sua mensalidade de cerca de R$200,00. Já seu corpo... Nunca vai sentir a diferença.

Mas a diferença entre um jovem inseguro, que mal sabe as variações possíveis do agachamento e os riscos de sua execução em postura inadequada, e um profissional com experiência e conhecimento, certamente vão se refletir no resultado do seu programa.  Infelizmente, talvez também nas lesões ocasionadas pela negligência involuntária que ocorre nas academias “frescas”.

 

A Academia do Caramello

 

A academia do Caramello é a única desta categoria em Brasilia, que tem 263 academias – mais do que os Estados de Goiás e Mato Grosso juntos, mais do que o Estado de Santa Catarina inteiro.

Brasília é uma cidade única: com um custo de vida exorbitante e aluguéis fora da realidade (eu morei em Brasília e vi com meus olhos), é habitada por funcionários públicos e trabalhadores do setor terciário. Abaixo de um estrato pequeno com altíssimos salários, a grande massa dos moradores da cidade ganha mal.

Quando eu cheguei a Brasília, lembro do que meus amigos diziam: ou você vence e “suporta” Brasília, ou ela vence você e você a abandona. Essa era uma percepção pessimista, mas refletia algo que aprendi a ver naquela cidade: a taxa de solidão e frustração, talvez pela predominância do serviço público, é gigantesca.

Salários baixos + frustração + solidão + stress = perdas na saúde e bem-estar. Agora me pergunto: sabendo que a recuperação de um mínimo de bem estar passa por um trabalho de condicionamento físico, por que gastar o pouco dinheiro que se tem em mensalidades de academia que não vão oferecer o que o consumidor necessita?

O que falta é cair a ficha de que o serviço que importa não está nas academias fakes da vida, e nem mesmo nas A e B. Está mais perto do que se imagina e a um custo muito menor.

O endereço está logo abaixo deste texto.

 

Caramello e o esporte nacional

 

Kleber Caramello, querendo ou não seus desafetos, é uma referência nos esportes de força no Brasil (powerlifting, strongman, luta de braço, fisiculturismo e levantamento olímpico). Ele mesmo é atleta de powerlifting. Divulga como ninguém os esportes em revistas (como o Jornal da Musculação e Fitness) e na internet, estimula atletas iniciantes e treina gente sem pedir nada em troca. Esses esportes são praticados no país inteiro por gente pobre, que luta com dificuldade. Essas pessoas têm no esporte uma das poucas fontes de alegria e auto-estima, bem como base para a disciplina e determinação necessárias para enfrentar uma vida sempre dura e cheia de adversidades. São esportes que têm muito pouco e pouca gente missionária para tocar para frente. Se a academia do Caramello não se mantiver aberta, a perda para Brasília é grande, mas para o esporte nacional é inominável. Está na hora de acordar e mostrar que nós, atletas e amantes do esporte sabemos ser solidários e ajudar a resolver esse problema que hoje afeta um de nossos irmãos, mas amanhã pode afetar a todos nós.

 

Faça algo

 

  1. Envie o link deste texto a amigos e conhecidos, especialmente de Brasília;
  2. Largue a porcaria da sua academia fake e vá treinar de verdade na academia do Caramello;
  3. Escreva para ele e tire suas dúvidas;

 

Endereço do Caramello

 

707 Asa Norte Bl.C Loja 57

Atrás da Pizzaria Primo Piato

Fone 3032 2992 

Aberto Das 8 As 22 Horas 

 
Kleber Augusto Caramello

 

Marilia

 

BodyStuff

This page was loaded Nov 28th 2009, 11:11 pm GMT.