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7th-Dec-2008 05:15 pm - Férias neurais
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Não é fácil, mas é necessário. Um atleta de força deve fazer “férias neurais”. Esse conceito anda flutuando com jargões variados entre bons técnicos e atletas. De um jeito ou de outro, barreira linguística ou não, todos têm pelo menos sua versão e explicação sobre os fenômenos neurais de consequências dramáticas que influenciam a execução destas estranhas tarefas motoras: os levantamentos de força máxima.

Entre os efeitos não estudados mas conhecidos está o “CNS overtraining” (overtraining de Sistema Nervoso Central), responsável pela queda dramática de capacidade de resposta de força máxima sem que haja nenhum sintoma de overtraining muscular. O outro é a recuperação neural, cuja compreensão também escapou à pesquisa até agora e é responsável por incrementos saltatórios de força da ordem de 20%.

Os descansos neurais, segundo a maior parte dos atletas de elite norte-americanos e europeus, são necessários antes e depois de competições. Variam de 10 a 20 dias conforme o levantamento e o regime de treinamento.

Nesse momento estou em férias neurais. Achei curioso observar que suporto bem as férias de levantamento terra, mais ou menos de supino, mas férias de agachamento me causam enorme angústia. Ainda não tenho uma explicação boa para essa sensação desagradável. Talvez porque durante as férias neurais dos outros dois levantamentos, eu me dedico a “forgotten lifts” (levantamentos esquecidos), que representam desafios técnicos e integração pessoal de boa qualidade. Mas agachamento é insubstituível. Ou não, mas ainda não me descobri nesta nova condição de “squat-less-person” (pessoa sem agachamento).

A ver.

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Desde o final de Dezembro não faço nenhum levantamento. Desde o início de dezembro não faço nenhum levantamento pesado.

Há várias escolas no treinamento de alta performance para o powerlifting, mas a maioria concorda que um período de recuperação de execuções máximas é necessário. Sebastian Burns, representante da linha Metal Militia, advoga meses de “férias de treinamento”, onde realmente nenhum treino de força é feito. Outros adeptos da mesma linha não são tão radicais e apenas reduzem a intensidade do treino, não executando máximas nos levantamentos por um período prolongado.

Exatamente como operam os componentes de adaptação e des-adaptação neural na execução de esforço máximo, não se sabe. Não há pesquisa nem publicações científicas a respeito. Os trabalhos sobre adaptação neural e transferência neural são ainda embrionários, feitos em modelos simplificados e não com atletas de alta performance (sobre adaptação neural em treinamento de força, há algo aqui).

Assim, acabamos nos valendo da observação sistemática de nós mesmos e colegas.

Lá por agosto ou setembro do ano passado, um dia, me vi incapaz de executar um esforço máximo ou acima de 90% do meu esforço máximo não competitivo. Entrei em pânico e tentei inúmeras estratégias, achando que tinha cometido algum erro técnico, ou que havia colocado anilhas erradas na barra. Não era.

Nesse dia, Shawn Lattimer me explicou que o que eu tive foi um “CNS overtraining” (overtraining de sistema nervoso central). Qualquer um que tenha curiosidade de dar um Google nesta expressão, ou buscá-la no Medline ou Pubmed poderá constatar que ela não é familiar aos pesquisadores. O que quer que sejam as bases fisiológicas deste fenômeno é desconhecido. No entanto, é um fenômeno bem familiar aos atletas de alta performance. O treinamento para esportes de força implica numa adaptação à execuções máximas (de esforço máximo). Depois de algumas semanas executando execuções máximas (ainda que uma vez por semana), ocorre uma mudança na resposta neural. Aparentemente, não é possível ativar o sistema de resposta para execuções máximas. Por isso o CNS overtraining pega os atletas de surpresa: em geral, não se instala aos poucos, com sintomas variados, como são os do overtraining propriamente dito. Não tem nariz escorrendo, fadiga e cansaço generalizado antecedendo. Vem de repente e a sensação que se tem é bizarra: é como se a força fosse repentinamente drenada de dentro do atleta.

Shawn me aconselhou a descansar por uma semana que tudo estaria bem novamente. Foi o que aconteceu. Também me aconselhou a ter mais cuidado e evitar mais do que quatro a seis semanas de máximas consecutivas, sem um intervalo sem esse estímulo.

Logo em seguida, um amigo meu entrou em CNS overtraining e foi desclassificado num campeonato.

A partir daí, fiquei mais observadora quanto a fenômenos de resposta neural em treino de powerlifting, especialmente porque notei uma variação individual muito grande no tipo de resposta.

Esse foi o período em que migrei para a Nautilus, onde tive uma boa equipe para treinar, mas não gaiola. Então fiz excelentes treinos com equipamento, mas não treinei finalização, lockout ou boards.

Foi uma mudança no treino que criei para mim no período anterior, que deu um resultado muito bom: sozinha, com a perna quebrada, incapacitada de treinar com equipamento (camisa de força), fiz treinos “raw” (sem camisa) e lockout. Só isso. Esse treino me garantiu, sem o apoio da perna, então engessada, minha primeira marca mais alta: 97,5kg, em Agosto.

Quatro semanas antes da Copa do Mundo de supino da WABDL, observei, perplexa, que não conseguia mais os números acima de 90kg. Seria novo CNS-ot? Não, era impossível. Observei os detalhes. Filmei. Então matei a charada. Perdi duas coisas: técnica de finalização e o que quer que seja o “reconhecimento” de cargas altas. Era como se meu sistema nervoso não reconhecesse mais cargas acima de 90kg como objetos de levantamento. Faltavam duas coisas: treinos de sustentação e finalização.

Cheguei à conclusão de que treinos para supino requerem estes elementos. Ainda não sei dizer como se aplicam aos dois outros levantamentos (agachamento e levantamento terra). Assim como se recupera facilmente a adaptação neural, se perde de forma igualmente rápida e fácil. É bom que se perca, e se permita essa perda temporária, para depois novamente criar a adaptação, num patamar superior (supercompensado).

DISCLAIMER: essas são considerações sobre minha experiência de atleta e meu processamento da informação que recebo do Shawn. Não são informações baseadas em experimentação ou publicações prévias.

 

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